Injeção sem comprimidos: estudo brasileiro mostra preferência maciça por nova estratégia de prevenção ao HIV
Ferramenta digital e escolha personalizada elevam adesão à PrEP injetável em jovens LGBTQIA+; pesquisa conduzida pela Fiocruz pode redefinir políticas públicas de prevenção na América Latina

Imagem: Reprodução
Uma transformação silenciosa está em curso na prevenção do HIV no Brasil. Um amplo estudo multicêntrico liderado por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) revelou que mais de oito em cada dez jovens de populações sexualmente diversas preferiram receber uma injeção bimestral de prevenção ao HIV em vez de tomar comprimidos diariamente. A pesquisa, publicada nesta segunda-feira (15), na revista científica The Lancet Regional Health – Americas, sugere que a combinação entre escolha individualizada e ferramentas digitais pode representar um novo paradigma para combater a epidemia na América Latina.
O estudo ImPrEP CAB Brasil, conduzido em seis cidades brasileiras, avaliou a aceitação do cabotegravir de longa duração (CAB-LA), uma forma injetável de profilaxia pré-exposição (PrEP), entre homens cisgênero, mulheres trans, homens trans e pessoas não binárias de 18 a 30 anos. Ao todo, 1.447 participantes foram acompanhados entre outubro de 2023 e outubro de 2024. Desses, impressionantes 82,9% optaram pela versão injetável, enquanto apenas 17,1% escolheram a PrEP oral tradicional.
A investigação foi coordenada por Thiago Silva Torres, Brenda Hoagland, Beatriz Grinsztejn e colaboradores de instituições brasileiras e internacionais, incluindo a University of Washington, a World Health Organization e centros especializados em HIV espalhados pelo país. O financiamento veio da Unitaid, da OMS e do Ministério da Saúde do Brasil.

Fluxograma do estudo .
Um total de 738 (51,0%) participantes foram alocados ao grupo SOC e 709 (49,0%) ao grupo mHealth + SOC ( Tabela 1 ). No geral, a maioria dos participantes se autodeclarou homem cisgênero (1318; 91,1%), 76 (5,2%) mulheres transgênero ou travestis , 33 (2,3%) pessoas não binárias, 14 (1,0%) homens transgênero e 3 (0,2%) pessoas queer. A mediana de idade foi de 26 anos (intervalo interquartil: 23–28) e 556 (38,4%) participantes tinham entre 18 e 24 anos...
O desafio da prevenção
Os resultados surgem em um contexto preocupante. Embora o número global de novas infecções por HIV tenha caído 40% desde 2010, a América Latina registrou aumento de 13% nos novos casos no mesmo período. Em 2024, ocorreram 1,3 milhão de novas infecções no mundo — mais de três vezes a meta estabelecida pelas Nações Unidas para 2025.
No Brasil, a PrEP oral está disponível gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde desde 2017. Ainda assim, persistem desigualdades importantes de acesso. Segundo os autores, a maioria dos usuários atuais é composta por homens gays brancos, acima de 30 anos e com maior escolaridade, enquanto a incidência da infecção cresce entre jovens negros.
“Expandir as opções de prevenção é fundamental para que as pessoas possam escolher a modalidade mais adequada às suas necessidades e circunstâncias”, argumentam os pesquisadores.
O poder da escolha
A principal razão apontada pelos participantes para escolher o cabotegravir injetável foi simples: a dificuldade de lembrar de tomar um comprimido todos os dias. Esse motivo foi citado por 78,4% dos usuários que optaram pela injeção. Outros 27,8% acreditavam que a aplicação era mais eficaz, enquanto 20,3% demonstraram preocupação com possíveis efeitos adversos dos comprimidos.
Entre aqueles que permaneceram na PrEP oral, a principal justificativa foi não gostar de injeções, resposta mencionada por 46,3% dos participantes.
A adesão à estratégia injetável também dialoga com um problema amplamente conhecido pelos especialistas: a dificuldade de manter tratamentos preventivos de uso diário. Estudos internacionais citados pelos autores indicam que cerca de 41% dos usuários de PrEP oral interrompem o tratamento em até seis meses.
Tecnologia como aliada
Um dos aspectos mais inovadores da pesquisa foi a avaliação de uma ferramenta digital de apoio à decisão. Desenvolvida por meio de um processo colaborativo envolvendo pesquisadores, lideranças LGBTQIA+ e potenciais usuários, a plataforma apresentava vídeos educativos sobre HIV, PrEP oral, PrEP injetável e outras estratégias de prevenção.
Os participantes que utilizaram a ferramenta digital antes da consulta tiveram 15% mais probabilidade de escolher o cabotegravir injetável do que aqueles que receberam apenas aconselhamento convencional.
Além disso, os pesquisadores observaram que quanto menor o chamado “conflito decisório” — medida psicológica que avalia dúvidas e inseguranças na tomada de decisão — maior era a probabilidade de optar pela modalidade injetável.
A aceitação da ferramenta foi extraordinária. Mais de 95% dos participantes afirmaram compreender completamente as informações, 93% consideraram o recurso útil para decidir e 95,7% declararam satisfação com a experiência.
Segundo os autores, esse resultado demonstra que soluções digitais culturalmente adaptadas podem ampliar o acesso à informação qualificada e fortalecer decisões autônomas em saúde.
Impacto para políticas públicas
O estudo é considerado o maior já realizado na América Latina sobre implementação da PrEP injetável em condições reais de atendimento público. Seus resultados chegam em um momento estratégico, quando novos métodos preventivos, incluindo medicamentos de ação prolongada, começam a chegar ao mercado global.
Para Beatriz Grinsztejn e colegas, a principal lição é que programas de prevenção precisam abandonar modelos únicos e adotar abordagens centradas na pessoa. A possibilidade de escolher entre diferentes métodos pode aumentar significativamente a cobertura preventiva, especialmente entre populações historicamente excluídas dos serviços de saúde.
Os autores alertam, contudo, que a expansão da PrEP injetável ainda enfrenta barreiras importantes, incluindo custos elevados e desafios regulatórios. Sem políticas que garantam acesso amplo e financiamento sustentável, a inovação corre o risco de beneficiar apenas grupos restritos.
Ainda assim, a mensagem central do estudo é otimista. Ao unir ciência, tecnologia e autonomia individual, a experiência brasileira sugere que a próxima geração da prevenção ao HIV poderá ser mais personalizada, inclusiva e eficaz. Em uma região onde os casos continuam crescendo, essa combinação pode representar uma das oportunidades mais promissoras para alterar o rumo da epidemia nas próximas décadas.
Referência
Escolha centrada na pessoa e suporte de saúde móvel para administração no mesmo dia de cabotegravir injetável de longa duração (ImPrEP CAB Brasil): um estudo de implementação prospectivo, aberto, multicêntrico e quase-experimental. The Lancet Saúde Regional – AméricasVol. 59 101522 Publicado: 12 de junho de 2026. Grupo de Estudos ImPreEP CAB Brasil. DOI: 10.1016/j.lana.2026.101522